Quais eram os seus planos para 2020? O nosso era nos formarmos em Jornalismo ao apresentar, como Trabalho de Conclusão de Curso, um documentário sobre os desafios por trás da alfabetização em escolas públicas da periferia de São Paulo, mais exatamente da região de São Mateus, na zona leste da cidade.

 

O projeto foi idealizado cerca de seis meses antes do calendário oficial exigir que as turmas entregassem as propostas. E levou menos de uma semana entre a primeira filmagem in loco e a readaptação do projeto após o decreto da quarentena no Estado de São Paulo.

 

Nosso projeto mudou seis vezes até chegarmos a esta reportagem dedicada a contar o choque do isolamento social na vida de cinco famílias e, principalmente, como esse momento de enclausuramento impactou a Educação dentro desses lares, todos inseridos em São Mateus, onde, em cenários normais, já não apresentava as melhores condições educacionais às crianças e adolescentes. Apesar de estarem no mesmo território, cada família, dentro de suas realidades e convivendo com suas particularidades, sentiu os efeitos da pandemia de maneiras diferentes. 

 

Contaremos a história de Alessandra, que teve que seguir trabalhando presencialmente mesmo com o decreto da quarentena e adaptar a rotina para dar conta dos estudos da filha, Ana Luiza. Cleiviane, por outro lado, já não trabalhava antes da pandemia e conseguiu se dedicar ainda mais às atividades e aprendizados do filho, Enzo, em fase de alfabetização. 

 

A família de Jackeline sofreu os impactos pela falta de equipamentos tecnológicos, internet e dificuldades financeiras durante a pandemia, que também afetaram Mily, mãe solo, que, além disso, sentiu a falta de políticas inclusivas para a sua filha, Gaby. E, por fim, o caso de Bruno, aluno do último ano do ensino médio, que encontrou apoio na família num ano decisivo para seu futuro.

 

Os textos dos próximos capítulos são resultado de meses de apuração à distância. Foram dezenas de conversas semanais ou quinzenais por telefone e pelo WhatsApp para entendermos de que forma o isolamento social estava impactando cada uma das casas onde, por opção, escolhemos entrar de maneira indireta, evitando qualquer exposição e risco à saúde das famílias e nossa também.

 

Em alguns casos, acompanhamos as famílias por cerca de seis meses; outras, por três, mas nos mantivemos sempre atentas às mudanças que elas perceberam em suas casas, rotinas e na Educação de seus filhos e filhas durante o enclausuramento.

 

Propomos, por fim, uma reflexão com especialistas da área sobre como o ensino remoto realizado num sistema já falho vai ampliar ainda mais a desigualdade educacional no país e como a escola está longe de ser um espaço restrito à aprendizagem de conteúdos teóricos.

 

Esperamos que não mude seus planos e continue a leitura.


REPORTAGEM POR Júlia Pereira e Luiza Eltz

ILUSTRAÇÕES POR Cecília Marins