A CASA COMO ESCOLA

Se engana quem pensa que a escola é apenas um espaço para aprendizagem teórica. “Na escola, a gente aprende mais do que os conteúdos curriculares. A escola é o principal espaço público que a gente frequenta e, para a maioria das pessoas, é o primeiro espaço público em que vai além da família. É onde a gente é forçado a conviver com outras pessoas, a viver regras que são mais impessoais, devem ser mais impessoais. Tem que ter contato com a diversidade de opinião, com a diversidade de modos de vida”, ressalta Maurício Ernica, professor da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

 

O especialista explica que a escola, como espaço público onde somos obrigados à socialização, enriquece a troca de aprendizados, tanto os curriculares quanto aqueles que ultrapassam para a vida social de cada indivíduo. “A nossa aprendizagem não é uma relação um a um: o aluno, o professor e o conhecimento. A nossa aprendizagem é o aluno, o meio coletivo da sala e o conhecimento. O que a gente perde com isso é esse meio coletivo em que a gente interage um com o outro, e é um espaço de troca, um espaço que a gente organiza nossa relação com o conhecimento”, diz.

 

Por outro lado, Maurício explica que o isolamento social possibilitou  a regulação do tempo individual de aprendizagem àqueles alunos que já desenvolveram alguns conhecimentos importantes na escola. Mas essa é uma realidade restrita a poucas pessoas, pois exige elementos como um lar tranquilo e bem estruturado para tal.

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A nossa aprendizagem não é uma relação um a um: o aluno, o professor e o conhecimento. A nossa aprendizagem é o aluno, o meio coletivo da sala e o conhecimento

Maurício Ernica, professor da Faculdade de Educação da Unicamp

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No Brasil, 79,1% dos domicílios utilizam a internet. O índice pode ser alto, mas ainda assim provoca a exclusão de 20,9% da população. A gravidade aumenta no cenário de pandemia em que a internet e tecnologias foram as aliadas ao aprendizado - ou, pelo menos, deveriam ter sido.

 

Durante o isolamento, enquanto a casa se tornou a escola, as famílias se tornaram auxiliares das equipes escolares e, em alguns casos, assumiram a posição direta de professoras e professores das crianças mesmo que, na maioria das vezes, não tenham formação escolar suficiente para isso.

 

Os estudos da área da Educação sempre analisam a formação da mãe para ver se os filhos terão chances de mudar de classe social. Quem diz isso é Andressa Pellanda, coordenadora geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação (CNDE).

 

“Quando você está nas periferias, toda a estrutura familiar daqueles alunos já é mais precária. A chance de ter pais com uma formação de ensino superior e pós-graduação é muito menor do que nos grandes centros ou em bairros mais ricos”, explica Andressa.

 

A falta da escola como espaço de socialização, a estrutura física precária e a formação insuficiente das famílias para o exercício da Educação foram alguns dos vários elementos enfrentados durante praticamente todo o ano de 2020 enquanto o ensino remoto foi praticado.

 

No momento em que pelo menos uma dessas exigências não fizer parte da realidade das famílias, o sentimento de frustração e impotência pode vir à tona e se unir ao abalo emocional causado pela pandemia em si. Diante disso, não se deve pensar em um momento de aprendizagem de currículo, como dito pela pedagoga, doutora em Educação pela Faculdade de Educação da Unicamp e professora do Departamento de Psicologia Educacional da instituição, Telma Vinha.

 

"Vivemos uma distopia, algo irreal. O mundo inteiro foi afetado por isso. Desde o início da pandemia, têm aumentado muito os índices de estresse, ansiedade e depressão. Então, pensar em uma aprendizagem de conteúdo é tentar normalizar uma situação que não é normal. O que importa é ajudar os alunos a lidarem com o momento atual, com os traumas. Tem gente que perdeu parente, que está com 15 pessoas dentro de casa, tem gente que precisa cuidar dos irmãos mais novos. É muito mais que conteúdo", afirma.

 

Não à toa, 75% dos estudantes de escolas estaduais de São Paulo enfrentaram a tristeza, ansiedade e irritabilidade durante o confinamento, fatores que influenciam e prejudicam o aprendizado dos alunos, segundo pesquisa realizada em junho pelo Datafolha em parceria com a Fundação Lemann, Itaú Social e a Imaginable Futures.

SAÚDE MENTAL NA QUARENTENA

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Fontes: Datafolha,  Fundação Lemann, Itaú Social e Imaginable Futures

A pandemia do coronavírus foi sentida em intensidades distintas entre as pessoas. As experiências são individuais e intransferíveis, mas, a seguir, tentamos contar com detalhes a história de cinco famílias que não tiveram só o isolamento como desafio em 2020, como também o ensino remoto das filhas e filhos.