A PANDEMIA

A pandemia, que parou o mundo, interrompeu também as atividades, planos e metas da Educação. Em São Paulo, as aulas presenciais do ensino básico foram suspensas a partir do dia 23 de março, nas escolas estaduais e municipais. Com isso, as redes começaram a criar medidas que atendessem à necessidade do ensino remoto.

 

O Governo de São Paulo, sob comando de João Doria (PSDB), prometeu a entrega de materiais impressos aos estudantes a partir do dia 27 de abril. A medida também foi adotada pelas escolas da Prefeitura de Bruno Covas (PSDB).

 

O Governo do Estado também passou a oferecer aulas por meio do aplicativo do Centro de Mídias da Educação de São Paulo (CMSP) e pela televisão, através da TV Cultura.

Imagens feitas na EMEF Prof. José Carlos Nicoleto, em 19 de março de 2020

Em ambos os casos, a maneira como ferramentas tecnológicas seriam utilizadas foi decisão individual de cada escola. Professores recorreram a métodos como o envio de atividades por e-mail, aulas por videoconferência e materiais disponibilizados em plataformas online.

 

O cenário da pandemia não foi o melhor para a Educação, mas o esforço das secretarias estaduais e municipais foi peça-chave para que o impacto fosse menos doloroso.

 

"Estamos adaptando a qualidade de ensino à distância de forma improvisada, temos secretarias de educação no Brasil que não estão tendo esse cuidado. Aqui em São Paulo, há um esforço real de fazer um ensino de qualidade, mas o professor ainda fica distante, tem dificuldades de acompanhar", explica o demógrafo e doutor em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Haroldo da Gama Torres. 

 

Para o especialista, a transição para o digital deve adotar uma série de estratégias a fim de manter a qualidade do ensino quando realizado remotamente. Aulas mais curtas, podcasts e complementação pelo uso de apostilas impressas são algumas das adaptações necessárias, o que não foi visto na maioria dos casos, segundo ele.

 

O problema é que as secretarias de Educação se limitaram às ações voltadas à realização ou não das atividades escolares, visando, principalmente, a retomada das aulas presenciais. Um estudo do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede) e do Comitê Técnico da Educação do Instituto Rui Barbosa (CTE-IRB) com 249 redes de ensino mostra que o ponto mais crítico esteve relacionado a estratégias para evitar o aumento do abandono e da evasão escolar.

 

A falta de planejamento do ensino remoto à realidade dos estudantes brasileiros também pode ser observada nos resultados da pesquisa “Impactos Primários e Secundários da Covid-19 em Crianças e Adolescentes”, realizada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) e lançada em agosto pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef ).

ESTUDOS NA PANDEMIA

47,8

mi

ESTUDANTES NO BRASIL

43,4

mi

4

mi

CONTINUARAM A APRENDIZAGEM NA PANDEMIA
(91%)
NÃO ESTUDARAM  REGULARMENTE NO PERÍODO
(9%)

Fontes: Censo Escolar 2019 e Unicef

Por outro lado, a comunicação entre as escolas e as famílias se manteve ativa, tanto na rede privada quanto particular. Segundo o estudo do Unicef, 68% afirmam ter recebido contatos das unidades escolares para informar progressos das crianças nas atividades, sendo 71% das escolas particulares e 65% nas públicas. Já aqueles que disseram que a escola entrou em contato para saber como estava a situação da casa, das crianças e dos adolescentes foram 48%. Neste caso, o contato maior foi para quem tem filhos em escolas públicas (51%) em comparação com famílias de alunos matriculados na rede particular (44%).

 

Além do ensino, a segurança alimentar dos estudantes também foi impactada durante a pandemia. No ano passado, o Brasil tinha 4,4 milhões de crianças de zero a 13 anos de idade vivendo em situação de extrema pobreza, o que leva 11,5% desse grupo a ter na merenda escolar a principal - quando não, a única - refeição do dia. 

 

Com o ensino remoto, tanto a Prefeitura quanto o Governo do Estado de São Paulo anunciaram a distribuição de auxílio merenda aos estudantes das respectivas redes. Na municipal, os valores foram definidos por etapa de ensino, sendo o mais alto de R$ 101 para crianças matriculadas em creches. Os estudantes da rede estadual receberam o auxílio de R$ 55. Em alguns casos, as famílias receberam cestas básicas em vez do recurso financeiro. No entanto, alguns problemas foram identificados: atraso e dificuldades no recebimento do benefício, e valor ou quantidades insuficientes para a alimentação dos alunos.

 

Enquanto a Educação brasileira enfrentava o pior dos cenários já vistos, o amparo a nível nacional foi enfraquecido. Nos primeiros meses de pandemia, os estudantes brasileiros lidaram com os desgastes de Abraham Weintraub na chefia do Ministério da Educação (MEC). Ignorando a maior crise pela qual a área já havia passado, o economista e professor universitário promovia críticas e insultos frequentes à oposição tanto por meio das redes sociais quanto em compromissos oficiais, a exemplo do ataque aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), vazado no vídeo da reunião ministerial de 22 de abril. A unificação de um plano emergencial para a Educação por meio de uma coordenação nacional foi deixada de lado. Quase um mês de dança das cadeiras após a saída de Weintraub, o teólogo e pastor Milton Ribeiro assumiu a liderança da pasta.

A falta de políticas públicas de maneira unificada acaba aumentando ainda mais o abismo educacional e afastando alunos de territórios já vulneráveis de um ensino de qualidade. Andressa Pellanda, coordenadora da Campanha Nacional pelo Direito à Educação (CNDE), afirma que a Educação acompanha os passos do contexto social no qual ela está inserida. Logo, num território já precário em vários aspectos, a aprendizagem acaba também sendo afetada.

 

Exemplo disso é São Mateus, uma das áreas mais vulneráveis da capital paulista. Localizada na zona leste de São Paulo, a dimensão de 45,80 km² abriga mais de 426 mil pessoas que firmam lares e estabelecem vínculos com o território.

A região - composta pelos distritos de Iguatemi, São Rafael e por aquele que leva seu nome: São Mateus - apresenta um IDH-M (Índice de Desenvolvimento Humano) de 0,732, considerado médio, mas que não aborda a complexidade dos problemas enfrentados pelos moradores da região: extrema pobreza, ausência de oferta de emprego formal, analfabetismo, infraestrutura e Educação deficitária.

 

São Mateus é uma das principais regiões de São Paulo que abriga uma população considerada em extrema pobreza. Isso significa que a renda per capita desses grupos é menor do que o custo de produtos e serviços essenciais que garantem as necessidades básicas de sobrevivência e consumo. Essa parcela da sociedade não possui condições suficientes para a compra de uma cesta básica, por exemplo.

 

O Atlas Socioassistencial mostra que as famílias que vivem nessas condições representam aproximadamente 13% da população de São Mateus. Num território com 123 mil domicílios, mais de 1.300 lares possuem renda per capita de até ⅛ do salário mínimo, configurando a extrema pobreza ao serem obrigadas a sobreviver com apenas R$ 98,50 mensais, ou seja, apenas R$ 3,28 diários (conforme o salário mínimo do ano do estudo).

 

A oferta de emprego formal também é crítica. Em São Mateus, apenas 1,16 entre dez habitantes com idade igual ou superior a quinze anos exerce função com carteira assinada. A grande maioria não tem o respaldo da Consolidação dos Leis do Trabalho (CLT) e fica privada de direitos como férias remuneradas, 13° salário, seguro-desemprego e aposentadoria, como mostra o Mapa da Desigualdade.

 

A baixa oferta de emprego formal no território tem sua origem em uma série de fatores, como o nível de escolaridade dos moradores. De 321 mil pessoas com 15 anos ou mais na região de São Mateus, 14.715 são analfabetas, ocupando uma posição crítica em comparação com as demais subprefeituras da cidade.

 

O analfabetismo, por outro lado, se contrasta com a proporção de matrículas na Educação Básica em escolas públicas. A média de ingresso nas escolas da região é de 79,4%, com destaque para Iguatemi, distrito com maior oferta na cidade de São Paulo, 86,71%. 

 

Oferecer a possibilidade dos alunos estudarem em escolas do mesmo distrito onde moram é importante. Porém, fazer com que essas escolas tenham boas condições de ensino e convivência é ainda mais significativo. Na região de São Mateus, problemas com a internet, instalações inadequadas, carência de materiais e equipamentos e condições precárias dos banheiros são algumas das situações destacadas por gestores, professores e alunos da Diretoria Regional de Educação (DRE).

 

Esse cenário é visto no território em situações de normalidade. Em tempos de pandemia, no entanto, as desigualdades foram ainda mais evidenciadas, impactando, consequentemente, a qualidade do ensino oferecida às crianças, adolescentes e jovens da região. “As periferias das grandes cidades acabam sempre tendo desafios muito mais complexos e muito menos olhados do que os grandes centros. A Educação está imersa dentro de um contexto social”, ressalta Andressa.

 

Além de insumos práticos utilizados para acompanhamento das aulas, também é importante observar o contexto no qual os alunos estão inseridos durante o ensino remoto. Como vimos, grande parte das famílias de São Mateus são formadas por adultos que tiveram acesso limitado à Educação. Enquanto as aulas são realizadas em casa, crianças e adolescentes dessas famílias não conseguem receber o apoio necessário na realização das tarefas escolares em comparação com alunos inseridos em famílias com alto nível de escolaridade. “As crianças mais pobres estão deixadas de lado nas políticas de Educação a distância e eu posso falar isso com toda certeza, não é generalização”, diz Andressa.