ANO PERDIDO

Este perfil nasceu após tentativas frustradas de conversa com duas famílias que apresentavam dificuldades com o acesso a equipamentos tecnológicos que permitissem um contato constante conosco - e, consequentemente, para acompanhar as aulas durante o ensino remoto. A situação financeira também foi uma pauta em comum em tais histórias, de gente que precisou optar entre a adesão a uma rede de internet ilimitada, por exemplo, e a compra de alimentos para os filhos. 

 

Foi assim com a autônoma Jackeline Anjos, 35 anos, moradora de São Mateus. No início da pandemia, o espaço limitado da casa com dois quartos e uma cozinha aumentou o estresse resultante de uma convivência forçada entre todos da família: Ruan, 18 anos; Kauan, 16 anos; Caroline, 10 anos; Aline, 5 anos; e o pai da família, Murilo, 39 anos.

 

Jackeline e Murilo estavam desempregados mesmo antes da pandemia e começaram a trabalhar com carreto para levar o mínimo aos filhos. Com o enclausuramento em razão do novo coronavírus, a família viu a situação financeira ficar ainda mais crítica. Os números dos transportes de embalagens do Brás e das mudanças que faziam, por exemplo, caíram drasticamente.

 

- No começo da pandemia, não tinha mudança, ninguém saía de casa. Era muito difícil. Tudo parou. Perdemos muita coisa. Muita coisa mesmo. Chegamos até a não ter o que comer.

 

A família recebeu uma cesta básica por meio da escola de um dos filhos. Mas a entrega foi feita somente em agosto e possibilitou 15 dias de alimentação. Dois cartões merenda também chegaram à casa, de R$ 55 cada. O valor, no entanto, era insuficiente e também foi recebido com atraso. 

- Na cesta, veio um saco de arroz, dois de feijão, açúcar, óleo, bolacha, molho, macarrão e só. Acaba ajudando, não é muito, mas acaba ajudando. 

 

Tanto Jackeline quanto Murilo foram aprovados para receber o auxílio emergencial de R$ 600. Com o cadastro em análise por meses, foi só a partir da terceira parcela que o dinheiro realmente chegou até a família. Quando surgia uma demanda de trabalho nesse período, o casal era obrigado a recusar pela falta de dinheiro para comprar os equipamentos de higiene e segurança.

 

- No começo, a gente não tinha máscara e álcool em gel. Era apenas sabão. 

 

Jackeline é asmática grave, o que a coloca no grupo de risco da Covid-19. Mas nem por isso podia deixar de trabalhar quando surgia uma oportunidade. Quando vem a asma, ela precisa parar tudo. Felizmente, as crises não vieram durante a quarentena. Depois de meses de pandemia, já no segundo semestre, a família conseguiu comprar três máscaras para cada filho.

 

Aí vieram as dificuldades de estudo e comunicação. Com a renda reduzida já que o serviço de carreto era cada vez menos requisitado, a família precisou cancelar o serviço de internet da casa, uma questão de sobrevivência, pois, segundo Jackeline, “ou você paga a conta ou você come”. A escolha feita em agosto impactou diretamente o estudo dos filhos.

A realidade da família se une às mais de 463 milhões de crianças em idade escolar do mundo que não tiveram acesso aos conteúdos escolares durante o período de pandemia. Segundo o relatório Remote Learning Reachability (A acessibilidade do aprendizado remoto), divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), a dificuldade aconteceu, em grande parte, devido à falta de programas e de bens domésticos para aprendizagem remota.

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ENSINO REMOTO NO MUNDO

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Fonte: Unicef

A família do bairro de São Mateus conta apenas com um celular, que fica com os pais durante o período da manhã e à tarde para facilitar possíveis contatos do trabalho. No início da quarentena, ao chegar em casa do serviço, Jackeline costumava organizar um revezamento de uma hora para cada filho usar o celular e acessar os conteúdos das aulas online publicadas no Google Sala de Aula. Porém, mesmo tendo o aplicativo baixado no aparelho, alguns dos filhos enfrentavam dificuldades para acessar os conteúdos escolares. 

 

- Quando a gente descobriu que ia fazer online as aulas, não sabíamos como entrar. O e-mail é complicadinho. É o nome, data de nascimento, o arroba é extenso, complicadinho de fazer. Para piorar, o e-mail do meu filho e de uma das minhas filhas eu colocava certinho e nada de entrar. E a escola não atendia.

 

A questão só foi resolvida meses depois, quando uma professora percebeu a ausência do primogênito, Ruan, nas aulas. Enquanto isso, Jackeline propôs uma rotina independente, utilizando livros antigos que já estavam em casa para impedir que os filhos interrompessem os estudos por completo.

 

O abandono das aulas chegou a preocupar a mãe, principalmente porque nem mesmo a escola soube informar qual seria o impacto da abstenção deles. Para Jackeline, isso mostra como “a Educação está largada e 2020 é um ano perdido”. Com o corte da internet no segundo semestre, os filhos foram obrigados a interromper os estudos na plataforma online. A mãe confessa que também não conseguiu mais dar continuidade à aprendizagem deles a partir dos livros físicos em razão da falta de preparo. 

 

- Sinceramente, eu parei, porque, se você não tem internet, você não consegue ver as explicações das professoras. E a gente não tem entendimento para fazer por conta própria e passar para eles. Daí eu resolvi largar de mão. Um celular, sem internet, não adianta.

A ausência de estudos acabou mudando drasticamente os planos de milhares de jovens brasileiro, como é o caso de Ruan. No início ano, o adolescente tinha como plano a carreira de necropsia. Mas, com os estudos precários, ele desistiu da ideia por considerar que o preparo para adentrar no curso não tinha sido suficiente. Decidiu, então, prestar um concurso público para entrar na Polícia. Mas quando viu a necessidade do ensino médio completo para fazer a prova, Ruan precisou, novamente, rever seus planos.

 

- Como vai ficar esse ano? Acredito que esse ano seja perdidão, mesmo, mesmo. Como a criança vai aprender desse jeito? Eu não sou professora. E outra: tudo atrapalha eles em casa. Como você vai deixar três filhos quietos para um fazer as tarefas? É meio complicado. Barulho da TV atrapalha, o filho chamando a mãe, é difícil…

 

Apesar de todo o cenário pandêmico e da forma como a família foi impactada pela crise, Jackeline acredita que o Sars-CoV-2 é menos perigoso do que os outros vírus. Para ela, tudo não passou de truques de políticos, que se aproveitam do período para se promover em ano de eleições municipais.

 

- Eu acho que a pandemia é uma mentira. Os outros vírus que já teve são piores que esse. Esse é mais por conta do presidente mesmo que foi eleito. Eu acho que eles tão tentando tirar esse governo, tentando fazer isso com uma outra pandemia pra quebrar a economia.

 

Quando questionada sobre uma possível retomada das aulas presenciais, Jackeline reconhece que deve-se ter cautela com o coronavírus mesmo que "ele não seja tudo isso". O medo da mãe é de que, na escola, os filhos sejam infectados e transmitam para ela, que faz parte do grupo de risco. Por ser uma das duas pessoas que trabalha na família, o receio de Jackeline é de se contaminar e precisar de um longo período de repouso, o que colocaria a renda da casa em risco.

Apenas um celular, sem internet em casa, com restrições à alimentação e pouco trabalho. Mesmo assim, de tempos em tempos, quando o sinal da operadora pegava e quando não precisava sair de última hora para fazer um carreto, Jackeline reservava alguns minutos para atender nossas ligações e contar, entre risos nervosos, sobre seus dias e desafios enfrentados pela família na pandemia.