Estamos escrevendo este capítulo em outubro. A pandemia do coronavírus ainda não chegou ao fim, mas já é possível perceber os impactos do ensino remoto na vida dos estudantes brasileiros e prever outros efeitos na Educação. O risco do aumento da evasão escolar ganha destaque entre as consequências da suspensão das aulas presenciais, fator que poderá acentuar o abismo educacional que, antes mesmo da pandemia, já existia no país.

 

No ano passado, das 50 milhões de pessoas com idades entre 14 e 29 anos, 10,1 milhões - ou seja, 20,2% dos indivíduos - não tinham terminado alguma das etapas da educação básica, conforme aponta a PNAD Educação de 2019.

E AGORA?

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O QUE LEVA À EVASÃO ESCOLAR?

GERAL

TRABALHO

39,1%

FALTA DE INTERESSE

29,2%

ENTRE MULHERES

GRAVIDEZ

23,8%

AFAZERES DOMÉSTICOS

11,5%

Fonte: PNAD Educação 2019

“Famílias que têm equipamentos eletrônicos em casa, talvez a adaptação tenha sido conturbada, mas têm disponibilidade de aparelhos, têm internet, têm plano de dados, têm um espaço silencioso para estudar. Agora, imagina vocês aquele grupo menos favorecido quando não tem escola. É aquela situação em que os mais frágeis, com maiores desvantagens, se desconectam da escola, somem desse espaço, das atividades escolares. Essa é a situação que vai aumentar ainda mais as nossas desigualdades”, diz Maurício Ernica, professor da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

 

Uma situação pandêmica responsável por "desigualar o que já é desigual", como expõe Luciana Alves,  gestora de projetos do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT) e diretora do Núcleo de Educação Infantil da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Segundo a pesquisadora, a escola tem a tendência de reproduzir desigualdades ao transformar a herança familiar em mérito no espaço de convivência. Nesse caso, à luz da pandemia, cada aluno teve que dar continuidade aos estudos dependendo da condição socioeconômica e cultural da família, o que agravou ainda mais a situação.

 

"A desigualdade aparece de um jeito que não dá pra ignorar. Escola tem a tendência de reproduzir desigualdades. E se ela delega às mães o papel de professoras, sem que elas tenham preparo para isso, o resultado é desigualar o que já é desigual", afirma a pesquisadora. 

 

Diante disso, a busca ativa é a principal medida que deve ser tomada para evitar que os estudantes sejam deixados para trás. Quem afirma isso é Italo Dutra, chefe de Educação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) Brasil.

 

“É preciso ir atrás dos estudantes que não estão acompanhando as atividades remotas já, agora. Já passou do tempo, inclusive. A gente precisa saber quem são esses alunos para que haja um planejamento e atuação na recuperação do vínculo com a escola. A gente não pode esperar que os alunos voltem para as escolas quando elas reabrirem. É preciso fazer uma busca ativa desses meninos e meninas, indo nas casas e trabalhando de uma forma mais intersetorial para entender essas questões”, enfatiza.

A busca ativa está diretamente associada à organização das redes de ensino durante o período de suspensão das aulas presenciais, como também na responsabilidade de coordenação do Ministério da Educação (MEC). Eram funções do órgão no período o levantamento de demandas, a mobilização de recursos e o esforço coletivo para orientar os estados e municípios, competências que não foram cumpridas durante as três trocas consecutivas da chefia da pasta durante a pandemia, segundo Ernesto Faria, diretor executivo e fundador do Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede). 

 

“O governo federal não teve o compromisso que deveria ter tido com as evidências e olhar com cuidado para a pandemia. O MEC deveria orientar o sistema. As diretrizes que a pasta aponta são muito importantes mesmo que quem faça as conduções das ações sejam os municípios”, explica.

 

Segundo Ernesto, o redesenho da aprendizagem remota deveria ser apontado tecnicamente pelo MEC, visto que a capacidade de administração de parte dos 5.570 municípios do país é baixa em razão da limitação da maioria das equipes técnicas. Ou seja, em períodos emergenciais como a pandemia, é necessário reconhecer a falta de recursos para articulação das ferramentas educativas.

 

Aliado a isso, também é necessária a valorização do papel cumprido pelas secretarias de Educação e por órgãos como a União dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), que, em nível subnacional, fizeram grandes esforços para preencher o vácuo deixado pela competência nacional, como pelo desenvolvimento de protocolos sanitários, criação de consórcios intermunicipais e sugestões de adequações curriculares. 

 

O planejamento e organização foram fundamentais durante a pandemia como também são essenciais para pensar a retomada. Italo e Ernesto apontam a necessidade da garantia dos protocolos sanitários de prevenção à Covid-19 para garantir segurança de funcionários, alunos e famílias. A retomada também não deverá ser integral, ou seja, é previsto que o ensino seja feito de forma híbrida - com aulas remotas e presenciais - a fim de evitar aglomerações no espaço escolar, o que ressalta ainda mais a necessidade de uma estruturação ordenada entre as redes de ensino e o poder público.

Ernesto Faria aponta ainda a importância da aplicação de uma avaliação diagnóstica com o objetivo de monitorar quais habilidades cognitivas foram desenvolvidas pelos alunos e quais foram enfraquecidas no período, uma estratégia que pode ser aplicada à distância por meio de ferramentas online, como formulários na internet, e retomada de maneira presencial com a volta das aulas. O diretor do Iede ressalta, ainda, sobre a aplicação da avaliação ser apropriada às características da região, da escola e à realidade dos alunos.

 

“É uma avaliação que tem que ser sobre os aspectos de aprendizagem, mas também pode ir em direção ao emocional dos alunos. Tem que se diagnosticar o que está acontecendo neste período à distância: se eles estão aprendendo, se estão engajados, quais são as questões, ver se moram com pessoas do grupo de risco, etc”, explica.

 

É preciso encarar que o ensino remoto “não foi perfeito”, conforme aponta Italo Dutra. Grandes grupos de estudantes enfrentaram maiores dificuldades no período e tiveram um acesso mais precário às atividades e conteúdos, assim como interações interrompidas com colegas e professores, o que gera a necessidade de uma atenção especial à saúde mental e emocional das crianças e adolescentes no preparo para a retomada das aulas presenciais.

“É necessário trabalhar de maneira mais equitativa, entendendo que alguns alunos vão precisar de mais tempo, de uma dedicação maior e que outros nem tanto. É necessária uma coordenação que permita que essas desigualdades ampliadas durante a pandemia sejam diminuídas, além de também atentar-se ao cuidado com a saúde mental dessas crianças e adolescentes”, diz o chefe de Educação do Unicef Brasil.

Segundo Marta Gil, coordenadora do Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas e do projeto "Práticas e Desafios da Educação Inclusiva", o obstáculo será ainda maior aos alunos com deficiência em razão da nova Política Nacional de Educação Especial (PNEE), que determina que as famílias poderão escolher em que instituição de ensino matricular os filhos: escolas comuns inclusivas, especiais ou bilíngues de surdos. O texto, segundo a especialista, dificulta ainda mais a inclusão desses grupos.

 

“A Educação Básica no Brasil ainda não pode ser considerada inclusiva em termos abrangentes e gerais, infelizmente. Está caminhando para isso. A construção da Educação Básica é um processo e, como todo processo de mudança cultural, é lento. O ser humano, em geral, resiste a mudanças - seja ela qual for. No caso da Educação, esse processo é muito recente, de 2008 - ou seja, tem 12 anos apenas para mudar uma mentalidade e instaurar novo olhar,  novas metodologias e adaptações, a começar pela acessibilidade arquitetônica, formação de professores, etc", reforça Marta. 

 

Mas afinal, o que foi a Educação durante a pandemia? No podcast abaixo, os especialistas Ernesto Faria e Italo Dutra propõem uma reflexão sobre os efeitos do ensino remoto.

E agora?Educação Isolada
00:00 / 26:15

Tentamos contato com as secretarias de Educação (municipal e estadual), mas não tivemos retorno até a conclusão desta reportagem. As aulas presenciais da escola da Ana Luiza, do Enzo, da Gaby, dos filhos de Jackeline e do Bruno ainda não foram retomadas. As casas das famílias continuam cumprindo o papel de sala de aula, sem uma perspectiva de quando essa junção obrigatória será desfeita.

 

A alternativa que a Alessandra encontrou para tentar contornar a ansiedade e estresse da Ana Luiza foi de frequentar a academia. No entanto, a distância da menina entre os colegas e a escola ainda causa o maior impacto. Mesmo com parte do tempo preenchido pelos estudos e pela nova atividade ao lado da mãe, Ana se queixa sobre a saudade que sente das amigas.

Já Cleiviane continua mantendo a mesma rotina com Enzo. Eles constroem diariamente um espaço de aprendizado e aproveitam o momento em família. 

 

Para Milly e Gaby, os desafios continuam grandes. A menina ainda não se adaptou totalmente aos medicamentos. A oscilação de humor é diária, o que também interfere no desempenho dela nas atividades escolares. Sem um apoio, Mily continua se desdobrando dia após dia para ser o suporte da filha.

O acesso às ferramentas online ficou cada vez mais limitado à família de Jackeline. Até a conclusão desta reportagem, nós conversamos poucas vezes com a mãe já que o celular, o único da casa, estava comprometido e prestes a quebrar. A câmera e o microfone já não funcionavam mais.

O Governo do Estado de São Paulo anunciou a retomada das aulas do ensino médio para o dia 03 de novembro, mas Bruno se recusa a voltar já que faz parte de um dos grupos mais vulneráveis à Covid-19. O adolescente ressalta a preocupação sobre como o ensino híbrido irá afetar as aulas ministradas nas plataformas online e, consequentemente, a preparação dele e dos colegas para o vestibular.

E agora?