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O QUE VOCÊ QUER SER QUANDO CRESCER?

- Eu vejo como o mundo olha pra ela, a ausência de amiguinhos, tudo me deixa muito triste também. Porque uma mãe sonha um mundo diferente pros filhos, né?

O sonho de Mily Ferrer, 28 anos, é que sua filha Gabrielly - ou Gaby, como a chama -, de 10 anos, consiga alcançar tudo aquilo que deseja ser e ter, mesmo que a menina ainda não tenha certeza sobre o que quer para o futuro. As aspirações variam com o passar dos dias: de atriz a modelo. Em um apartamento no Parque Boa Esperança, localizado no distrito de Iguatemi, em São Mateus, a mãe não mede esforços para estimular os sonhos e desenvolvimento da filha, busca sempre dar a melhor vida possível à menina, inclusive, voltando 100% do salário para os cuidados com ela. A única certeza provisória de Gaby é que deseja ter filhos - mais especificamente uma filha - após os 28 anos de idade.

 

Diagnosticada há 4 anos com déficit de atenção, deficiência intelectual moderada, hiperatividade e Síndrome de Peter Pan, a menina enfrenta desafios e possui necessidades específicas e diferentes em relação às outras crianças da sua idade. Matriculada no quinto ano da Escola Estadual André Nunes Junior, Gaby ainda não é alfabetizada e, por isso, encontra ainda mais obstáculos por estar inserida numa série que não acompanha. A mãe afirma que a filha é excluída socialmente e que nem os professores nem a escola são os reais culpados, mas sim o Estado.

 

Mesmo não acompanhando os conteúdos das aulas e não conseguindo fazer os trabalhos, atividades e provas propostas, Gaby é aprovada ano após ano, sem abordar a grade curricular planejada para as séries. Com o demorado e burocrático aval da rede de ensino para que a menina tenha o acompanhamento de uma professora auxiliar, ela foi incluída em uma sala de recursos multifuncionais (SRM), classe composta por alunos que necessitam de uma Educação adaptada.

 

A política - denominada Atendimento Educacional Especializado (AEE) - foi criada em 2008 com o objetivo de "assegurar a matrícula de pessoas com deficiência na escola comum e estabelecer diretrizes para a criação de políticas públicas e práticas pedagógicas voltadas à inclusão escolar". Para Gaby, isso significa ter aulas diferenciadas duas vezes por semana. Segundo Mily, são passadas atividades básicas, como de colorir, o que ela considera mais como “auxílio psicológico” do que de aprendizagem em si.

- O Estado, o Governo, a Prefeitura me fazem colocar minha filha numa sala de aula que ela não acompanha. Ou seja, ela tá no quinto ano e não está alfabetizada. Não sabe ler, não sabe escrever. E simplesmente todo o dia ela vai pra escola, senta na cadeira e fica olhando.

 

Com a pandemia do coronavírus, a exclusão social ficou ainda mais perceptível para Mily. O material que estava sendo encaminhado à filha era um conteúdo específico para os alunos do quinto ano, ou seja, matérias que Gaby não consegue acompanhar.  Depois de um contato direto com a professora da sala de recursos pelo WhatsApp, Mily conseguiu fazer com que atividades específicas fossem enviadas à filha, principalmente de desenho, pintura, caça-palavras e exercícios de matemática básica.

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Atividades enviadas à Gaby no período de ensino remoto

O ensino remoto chegou e fez com que a menina de 10 anos tivesse que passar os dias em casa. Para evitar que a filha ficasse sozinha, Mily pediu demissão da assistência técnica onde trabalhava como balconista. Os impactos no bolso da família foram sentidos. O marido, Thomas Valpassos, que trabalha como serralheiro industrial, também teve o salário reduzido no período. O valor, inclusive, é voltado aos custos da casa, como contas e compras do mês. Mily improvisou fazendo sobrancelhas para conhecidas e vendendo cestas personalizadas para datas comemorativas. O auxílio emergencial também ajudou a família, que conseguiu receber todas as parcelas de R$ 1.200,00 - antes do benefício ser reduzido - já que Mily é considerada mãe solo. O Bolsa Família também chega à casa, no valor mensal de R$ 41. Já a cesta básica, distribuída pela escola, chegou apenas duas vezes na casa do Boa Esperança, com restrição de itens: dois pacotes de arroz, um de feijão e uma mistura.

 

O pai biológico de Gaby, por outro lado, não está presente no cotidiano da menina como deveria. Durante a quarentena, Mily conta que a filha teve pouco contato com ele, principalmente de forma presencial. Foram poucas visitas ao longo do período, o que causou uma grande insegurança em Gaby, que questiona o sentimento paternal. A ajuda financeira também fica restrita a valores específicos e abaixo daqueles que a filha deveria receber.

 

Foram quatro meses que Mily precisou improvisar para conseguir uma renda em casa até chegar numa situação mais crítica e precisar voltar a trabalhar na assistência técnica. A rotina faz com que a mãe de Gaby saia de casa às 7 horas e retorne só depois das 19h. Tudo o que recebe - um salário mínimo - é voltado aos custos de vida da filha, inclusive uma cuidadora para a menina. Mily passou a pagar uma vizinha do seu prédio para ficar com a filha enquanto as aulas presenciais na escola ainda não voltassem.

 

- A rotina diária é cansativa, entendeu? Ser mãe, esposa, dona de casa e trabalhar… e professora agora! Eu não tenho muita escolha. Eu tenho que me virar e ponto. 

 

O dia a dia exaustivo impediu que Mily acompanhasse a vida escolar da filha de segunda a sábado. A mãe, então, tentou organizar a semana para que fizesse as atividades enviadas pela professora da sala de recursos aos domingos. 

- O meu tempo já é corrido. Se eu entregar essas coisas nas mãos de outras pessoas, ela vai crescer e eu não vou acompanhar nada. Eu quero participar das conquistas dela, eu quero ver o desenvolvimento dela. Eu sei que, quem for fazer esses momentos das atividades, vai acabar ficando nervoso, irritado, e tenho medo que descontem nela.

 

O receio de Mily é em relação a como as outras pessoas enxergam a filha. A menina tem constantes variações de humor em razão dos transtornos psicológicos com que foi diagnosticada. Em meados de julho, depois de várias tentativas da mãe, Gaby foi atendida por uma neurologista do Sistema Único de Saúde (SUS), que prescreveu um medicamento voltado ao déficit de atenção e ansiedade. Os meses de adaptação ao remédio, no entanto, foram um período de constantes mudanças de humor e aumento da irritabilidade para a menina. As alterações acabam impactando também a saúde mental de Mily, que se sobrecarrega para dar conta dos cuidados com a filha aliados à rotina do trabalho.

 

- Meu patrão fez pra mim o Cartão Cristão [Associação que oferece atendimento de diversas especialidades médicas] e eu já tava bem pra marcar consulta com um psicólogo. Eu falei: ‘Alguém vai ter que me ouvir!’.

 

Enquanto não recebe o acompanhamento médico necessário, Mily busca apoio em outras famílias que enfrentam as mesmas dificuldades que ela. Em agosto, criou um grupo no WhatsApp com mães de crianças com deficiência, onde compartilham informações, desabafam sobre os desafios que encontram no dia a dia e aconselham umas às outras.

 

- A mesma dificuldade que eu enfrento outras mães enfrentam também. É algo que me faz bem, eu sei que não estou sozinha.

O apoio, no entanto, não exclui a preocupação de Mily com a filha. Com cada vez mais alterações de humor e de comportamento, a mãe volta a pensar em pedir demissão do trabalho e dedicar seus dias aos cuidados da menina, pelo menos enquanto a rotina na escola ainda não tenha sido retomada. Porém, o impacto que a redução da renda vai causar hesita que Mily tome uma atitude impulsiva. A venda de itens personalizados, como fez no início da pandemia, não parece ser uma fonte suficiente.

 

- Não é algo que me dá garantia todo mês que nem o emprego. O emprego eu sei que eu vou trabalhar todo dia e vou ter salário todo mês. Vendendo as coisas eu sei que vai ter mês que eu vou ter e mês que eu não vou ter. Eu já não tenho suporte do pai dela, meu marido ajuda e muito, só que a gente tem que complementar a renda, se não já aperta

 

Mily considera que todos os avanços da vida escolar da filha - como, por exemplo, o conhecimento de determinadas vogais e sílabas - são fruto do aprendizado em casa. O desejo da mãe, inclusive, é de que a filha seja educada no lar, já que a não compreensão dos conteúdos passados em sala acaba aumentando a frustração da menina no dia a dia escolar.

 

- Se ela fosse pra escola e tivesse um tratamento voltado pra ela e pras outras crianças especiais, tudo bem. Mas ela vai pra escola pra ficar sentada. O caderno vai em branco e volta em branco, sempre foi assim. Em casa, eu vou dar um jeitinho de alfabetizar ela, pelo menos ensinar a ela o básico, que é a independência. Se já é assim agora, imagina na sétima série? E se acontecer um abuso dentro da escola? Porque ela é totalmente inocente.

 

A frustração por não acompanhar os conteúdos na escola se unem ao que Mily chama de “brincadeiras de mau gosto” que outros alunos fazem com a filha por não entenderem e não aceitarem o jeito de Gaby. Durante a quarentena, essas brincadeiras foram esquecidas, porém, a interação da menina com outras crianças do condomínio onde mora teve o mesmo efeito e ela voltou a ser excluída das interações e objeto das tais “brincadeiras”. O resultado foi o que Mily chama de “complexo de inferioridade”.

Ser mãe solo faz com que Mily tenha que sonhar por duas e acaba carregando o peso das expectativas frustradas dela e da filha. Cada obstáculo que não consegue ultrapassar acaba sendo uma culpa para a mãe, como quando percebe que a filha tem dificuldades para aprender uma palavra nova ou quando é deixada de lado nas brincadeiras com os colegas. Ser mãe solo também significa ter de ser forte em momentos de fragilidade e impulsionar sonhos para que a criança consiga o melhor da vida já que, segundo Mily, "se eu desanimar, ela vai ser uma criança depressiva também". 


Então, Gaby, o que você quer ser quando crescer?