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PROFESSORA POR OPÇÃO

- Entre ir para a escola e alfabetizar em casa, eu teria total chance de alfabetizar ele em casa e não mandar para a escola, sabia? Só que infelizmente eu não posso. Mas, se fosse para fazer essa escolha, é o que eu optaria.

 

Há cerca de quatro anos, Cleiviane Pereira Santos de Matos, de 33 anos, pediu demissão da empresa onde trabalhava como sub encarregada de laticínios para se dedicar mais aos cuidados com os filhos, Enzo, de 7 anos, e Luís Felipe, de 14. A decisão foi tomada depois de um bom planejamento. Por isso, a moradora do Jardim Rodolfo Pirani, bairro do distrito de São Rafael, não sentiu grandes impactos na renda da família. O ensino remoto não foi uma má ideia para a mãe que já era a favor da Educação em casa.

 

Segundo a Associação Nacional de Educação Domiciliar (Aned), cerca de 7,5 mil famílias brasileiras pensam da mesma forma que Cleiviane. A conta resulta em aproximadamente 15 mil crianças, adolescentes e jovens que recebem a Educação em casa, principalmente dos pais, mesmo que a prática não seja regulamentada no Brasil. Em 2018, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que, em razão da legislação atual, as famílias não têm o direito de tirar os filhos da escola e ensiná-los exclusivamente em casa. A maioria dos ministros entendeu que a frequência das crianças na escola é necessária, a fim de garantir uma convivência com estudantes de origens, valores e crenças diferentes, por exemplo.

 

Um dos principais motivos que levam as famílias à prática do homeschooling - ou Educação Doméstica - é a qualidade do ensino. Em tempos de pré-pandemia, Cleiviane sentia que o ensino público era muito atrasado, reflexo de "muita brincadeirinha e perda de tempo" na aprendizagem. A mãe caracteriza a faixa etária do filho caçula e o período escolar como um momento de descobertas, em que tudo é novo e gera curiosidades. Segundo ela, a escola não estava abraçando essa fase corretamente. 

 

- Todos os dias ele chegava e falava assim: “Mãe, eu já estou cansado disso, eu queria coisa nova!”.

A participação ativa da mãe na vida escolar desde cedo possibilitou a entrada de Enzo na EMEF Prof. José Carlos Nicoleto com conhecimentos prévios sobre vogais, consoantes, além de, também, já saber soletrar e estar começando a escrever com letra cursiva.

 

A decisão de ter uma postura mais participativa tem como referência a própria infância de Cleiviane. Ela optou por resumir que sua vivência foi difícil e "marcada pela maldade" pois, segundo ela, relembrar o passado é reviver uma dor. Diante de sua própria trajetória, a mãe acha necessário o diálogo e acompanhamento dos seus filhos. Cleiviane detalha que durante as refeições prioriza a conversa com Luís e Enzo para que eles "não tenham tabu e adquiriam respeito sobre seu próprio corpo". Um espaço de troca, conversa e aconselhamentos sobre a vida em que a base do ensino dos filhos seja o respeito pelo ser humano e às escolhas de cada indivíduo.

 

- Eu sempre falei que, no dia que eu for casar e tiver uma família, eu iria fazer de uma maneira totalmente diferente. Eu não carreguei traumas da minha infância, eu perdoei tudo. Comecei uma nova vida depois dos meus 12 anos. Hoje, eu olho pra eles [os filhos] e vejo que é possível fazer a diferença. As pessoas deviam se culpar menos, dá pra viver diferente, tudo pode ser mudado. E eu sempre pensei nisso: o dia que eu tiver uma família vai ser totalmente diferente. 

 

Com esse pensamento e o início da quarentena, a rotina de acompanhamento do estudo dos filhos só precisou ser adaptada. Em março, no início do decreto do isolamento social, Cleiviane reservou duas horas por dia para acompanhar o caçula da família com as atividades da escola. O horário dependia da rotina dela, que também precisava conciliar as novas obrigações com as tarefas domésticas. O filho mais velho, por outro lado, não precisava tanto da ajuda de Cleiviane nos estudos, por já ter uma idade mais avançada em relação ao irmão e, como consequência, maior independência para dar andamento sozinho aos estudos. A participação de Cleiviane, portanto, foi maior na Educação de Enzo durante a pandemia.

A mãe estudou até o 1º ano do ensino médio na rede pública de Ilhabela, litoral norte, onde morou a vida toda até conhecer o pai de Enzo e mudar para São Paulo. Edvaldo também não teve tanto avanço nos estudos, ficando restrito até a 1ª série do ensino fundamental, o que, segundo a Cleiviane, foi resultado de quando ele “fugiu da escola” pelo desinteresse e preguiça em estudar. 

 

Além disso, a rotina de trabalho do marido como encarregado de armador na construção civil, para ela, influencia na pouca participação do pai na vida escolar do filho, o que não possibilita que ele seja tão ativo na Educação das crianças como ela. A presença fica restrita aos domingos, quando, de forma espontânea, Enzo pede ao pai que leia um livro ou ajude em alguma lição.

 

- É cansativo, né? Coitado. Acorda às três e meia da manhã, para sair para trabalhar longe. Depois, sai do serviço às cinco horas, chega em casa quase nove horas da noite. Aí, o que ele faz: ele chega, vai cuidar dele e depois vai dar atenção. Depois, é jantar e dormir de novo, coitado. É bem cansativo. Não é nem o trabalho, é o percurso, né?

 

Desde quando o ensino remoto foi adotado pela Prefeitura de São Paulo, os professores da EMEF Prof. José Carlos Nicoleto passaram a utilizar o Google Sala de Aula. O uso da tecnologia não foi um problema na casa da família, que já dispunha de celular, computador e internet. A maior dificuldade enfrentada foi a falta de contato com os professores para esclarecer as dúvidas e receber devolutivas sobre as atividades entregues.

 

- Não tem muito o que cobrar, porque foi a única forma que eles acharam de estar fazendo isso. Pegou todo mundo meio que despreparado, então não tem muita coisa para fazer. Eu nem critico, porque é a única forma que eles têm.

À medida que o decreto da quarentena foi se estendendo, Cleiviane reconheceu a falta de preparo para ensinar o filho que está começando a ler e a escrever. Mesmo sendo a favor da Educação em casa, a mãe assume que não tem a formação necessária, mas admite também que outros pais e mães enfrentaram dificuldades ainda maiores durante o ensino remoto.

 

- Enfrentamos, sim, dificuldades, porque tem que partir muito discernimento da minha parte para ensinar, ter aquela paciência de explicar até o ponto em que ele entenda. Depois, para tentar realizar a atividade. É tudo por etapa, né? Fora que tem crianças que os pais não são alfabetizados, então encontra sim muita dificuldade.

 

Foi essa dificuldade que fez com que Cleiviane adaptasse a rotina de estudo ao longo dos meses. Aquelas duas horas diárias reservadas no início para acompanhar as atividades escolares foram reduzindo. A mãe passou a observar as dificuldades que o filho enfrentava entre um conteúdo e outro e a respeitar o ritmo dele, para que o aprendizado fosse feito sem sofrimento, como ela costuma falar.

 

Apesar do enclausuramento forçado, a pandemia não foi um grande desafio para a família. Como sempre foram caseiros, como Cleiviane diz, ficar em casa durante os meses não foi uma novidade. A rotina esteve dividida entre a vida escolar do caçula e passatempos, como cozinhar.

Por mais que admita sentir falta da escola, dos professores e dos amigos, Enzo gostou de ter aulas em casa e aprender, principalmente, o alfabeto, ler e escrever. Apaixonado pela culinária, entre uma atividade e outra, o menino às vezes se arrisca na cozinha quando decide fazer um bolo ou biscoitos mineiros, sempre com a supervisão e companhia da mãe.

- Quando eu não tô fazendo atividade, gosto de desenhar no caderno, comer sorvete, milk shake, comer pizza, andar de bike, chutar bola e passear de carro!

 

Entre uma volta pelo bairro e idas ao mercado, o clima pandêmico começou a sufocar a família, que decidiu que, em agosto, iriam passar uma semana em Ilhabela, para visitar a família e dar uma espairecida, sair um pouco daqui. Dias antes da viagem, porém, a irmã grávida de Cleiviane foi diagnosticada com a Covid-19 e os planos de ver o mar e caminhar na orla da praia foram por água abaixo. A pausa no enclausuramento teve que ser adiada. 

 

Enquanto isso, a rotina se manteve, entre uma dúvida do Enzo sobre o exercício de Matemática e uma nova palavra que ele aprendeu a escrever.