QUASE LÁ

Bruno Kato, de 17 anos, é um dos 5,8 milhões de estudantes que se inscreveram no ENEM neste ano. Matriculado na Escola Estadual Sapopemba, o jovem teve que lidar com as incertezas causadas pela pandemia que chegou justamente num ano decisivo para ele: o fim do ensino médio.

 

- A minha maior preocupação é não estar tão preparado para o vestibular como eu imaginei, porque a escola virtual não é a mesma coisa que uma escola presencial.

 

É no bairro de São Mateus onde Bruno mora com a família: o irmão Luís, de 21 anos, estudante de Jornalismo na Faculdade São Judas; a caçula Júlia, de 13 anos, matriculada no sétimo ano em uma escola particular do mesmo bairro; a mãe Leila Kato, 47 anos, auxiliar administrativa; o pai Luiz Yamanaka, 56 anos, supervisor no Instituto Fernando Henrique Cardoso; e Jorge Yamanaka, o tio paterno, de 62 anos, desempregado.

A organização, no entanto, foi apenas um plano ideal. Ao longo do período, Bruno se deparou com alguns obstáculos que impediram com que a rotina fosse seguida à risca. Os conteúdos das aulas da escola não eram publicados diariamente no mesmo horário, o que prejudicou a rotina de estudos do jovem. Além disso, cada professor decidia a maneira que iria ministrar as aulas: por meio de vídeos no Youtube, envio de atividades por e-mail ou outras plataformas. Já as aulas do CMSP eram sim transmitidas conforme um calendário estipulado previamente, o que ajudou Bruno a manter o mínimo de organização de seus estudos.

 

Outro desafio que ele enfrentou ao longo do ano - talvez o maior deles - foi a falta de troca com professores para esclarecer dúvidas que surgiam conforme os estudos avançaram. O contato com os profissionais do CMSP era nulo - já que as aulas eram gravadas pelos profissionais do Estado e transmitidas na TV -, assim como com os docentes da própria escola onde o jovem estuda. A sobrecarga vinha de outro lado, com várias atividades propostas durante as semanas. Todos esses fatores causaram um desgaste no aluno na reta final do ensino médio.

 

- Em geral, eles só jogam a atividade pra gente e dão a nota. Então, se a gente fizer algum erro na atividade, o professor não fala nada. Eles ficam tacando atividade no sistema e não param… Os professores não pensam no nosso desgaste físico e psicológico. Eles só vão passando atividade.

O ruído da televisão ligada, conversas paralelas e falta de privacidade acabaram impactando a rotina de estudos do aluno do ensino médio. Com o enclausuramento causado pela pandemia, toda a família do adolescente foi obrigada a ficar em casa. Os irmãos também migraram os estudos para o lar. Os pais trabalharam em home office durante todo o período de isolamento social. Mesmo que o cenário não tenha sido o ideal, Bruno tentou “sempre ficar focado”, como ele mesmo diz, na medida do possível.

 

O adolescente organizou e seguiu uma rotina durante o período de ensino remoto. As aulas da escola, publicadas em plataformas como Google Sala de Aula e Youtube, ficaram para as manhãs. À tarde, Bruno costumava assistir vídeos de canais educativos para que, à noite, conseguisse se dedicar ao conteúdo produzido pelo Governo do Estado e transmitido pelo Centro de Mídias da Educação de São Paulo (CMSP).

Foi em julho, após cerca de quatro meses de ensino remoto, que os professores da Escola Estadual Sapopemba sugeriram uma pausa de duas semanas aos alunos para que fosse possível uma reestruturação na forma como as aulas estavam sendo realizadas. Os profissionais se abriram para tentar compreender melhor as demandas e reclamações das turmas e propor uma articulação de conteúdos e atividades no cenário da pandemia. Para Bruno, a melhora de contato foi visível após essa adaptação.

 

A partir de agosto, as eventuais reuniões no Google Meets que visavam o esclarecimento de dúvidas foram aos poucos incluídas no que Bruno denominou de "roda de conversa". Mesmo que virtual, os professores passaram a conversar com os alunos sobre as dificuldades enfrentadas na pandemia e, principalmente, sobre a fase peculiar que eles estavam vivendo: o pré-vestibular.

 

- Os professores perguntam como a gente tá, a gente responde, e isso vai virando uma roda de conversa. E daí no final a gente sempre desenvolve alguma ação para melhorar nossa mentalidade.

 

As aulas a distância causaram um desgaste no menino. Antes da pandemia, o estresse era aliviado por momentos como os de caminhada pelo bairro com os amigos. Enclausurado, a saída encontrada por Bruno foi a companhia do seu "mini zoológico", como chama. São onze animais de estimação: 1 hamster, 3 gatos, 2 cachorros, 1 peixe e 4 periquitos. Outra saída foi a playlist com músicas variadas, do rock ao samba, e a leitura de livros para o vestibular que, mesmo sendo obrigatória, ajudaram o menino a espairecer. Diagnosticado com bronquite asmática, Bruno faz parte de um dos grupos mais vulneráveis à Covid-19. Por isso, durante a quarentena, evitou qualquer contato com o exterior, assim como a família, que só saiu de casa para atividades necessárias. As limitações, porém, foram encaradas pelo jovem com racionalidade. O enclausuramento não o fez mais ansioso.

 

Foi dentro de casa que Bruno também teve que tomar a decisão sobre qual caminho seguir no ensino superior. No início da quarentena, o adolescente estava dividido entre prestar o vestibular para o curso de Publicidade e Propaganda ou de Design. As escolhas convergiam com o gosto pelo desenho e pela informática. Com auxílio de amigos mais velhos que notaram a afinidade de Bruno com a área de design, o jovem definiu o curso para o qual se inscreveria no vestibular.

- Eu senti tranquilidade em tomar essa decisão porque ninguém me pressionou. Mas, no fundo, acabei sendo um pouco pressionado por conta do tempo, porque a gente não sabe quanto tempo que vai demorar para acabar a pandemia. E, quando acabar, vamos ter que voltar preparados [para o vestibular]. 

 

A serenidade de Bruno vem, principalmente, do apoio da família. A mãe nunca exigiu que ele ou o irmão mais velho tivessem planos definidos para quando terminassem a escola, já que ela mesma não chegou a concluir o ensino superior. Além desse fato, Bruno é visto pela família como uma pessoa inteligente e dedicada. Em relação aos estudos, Leila lembra dos momentos que precisou "mandar ele ir dormir para parar de estudar". 

 

- Nunca pressionei eles de que “terminou escola, tem que prestar vestibular, tem que cursar faculdade”. Nunca fui essa pessoa, sempre fui bem aberta. É importante estudar, mas eu acho que é muito cedo com 17 anos você pensar pra sua vida inteira. Tomar uma decisão pra sua vida toda é muito difícil.

 

Leila acredita que essa conversa seja importante para uma Educação que vai além do aprendizado curricular, ainda mais num cenário de queda na qualidade do ensino durante a pandemia. A mãe sempre se propôs a conversar com os três filhos sobre "as dificuldades e as vitórias". Já o pai, segundo ela, não é tão presente na Educação dos filhos.

 

- Ele participa menos. Ele participa como pode, trabalha bastante no dia a dia. Agora, ele tá em casa, grupo de risco. Mas antes saía às 6h da manhã, volta apenas 20h da noite. Quem participa mais do dia a dia sou eu, apesar de trabalhar fora.

Mesmo com as dificuldades enfrentadas durante o ensino remoto, nem Bruno nem Leila se sentiriam confortáveis com a possível retomada das aulas presenciais, já que o menino e o pai fazem parte do grupo de risco da Covid-19. Além disso, o jovem e a mãe observam os problemas estruturais existentes na escola, antes mesmo da pandemia, como um espaço limitado para uma quantidade grande de alunos, o que impossibilitaria o distanciamento social. Para eles, a volta às aulas ainda neste ano seria feita sem a segurança necessária.

 

A mãe considera que, entre os três filhos, a caçula foi a mais prejudicada pelo ensino remoto. A menina de 13 anos começou os estudos em uma nova escola no início do ano e mal conseguiu estreitar laços com a turma antes da quarentena. O “gênio preguiçoso” dela, segundo Leila, também dificulta no foco com a aprendizagem de uma maneira mais independente. Já sobre Bruno, a mãe acredita que as dificuldades surgiram a partir de um cenário inimaginável, o que resulta em um “ano perdido”.

 

- O Bruno sempre foi um menino muito inteligente, nunca me preocupei com notas, nem nada, mas é totalmente diferente. Você tem que se virar para estudar, os professores conseguem ensinar, mas não é a mesma coisa do dia a dia, de uma aula presencial. Sempre ficam dúvidas mesmo com o Bruno fuçando na internet, pesquisando, né? Então assim, não é o mesmo aprendizado. Se ele não conseguir agora [ingressar em uma faculdade], não tem problema.

 

Enquanto isso, Bruno continua dedicando suas manhãs, tardes e noites aos estudos. O objetivo é o acesso a uma instituição pública, mais especificamente na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), sem a projeção de alternativas caso a tentativa não seja alcançada no momento do exame. Ficaremos na torcida.

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