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SOBRECARGA HABITUAL

O alarme toca às 6h ela levanta toma banho se arruma pega a perua que sai do bairro às 7h chega no serviço às 9h almoça 13h ou 14h atende às chamadas de vídeo da filha algumas vezes ao longo do dia para tirar aquela dúvida da tarefa de Português vai embora às 17h pega mais de duas horas e meia de trânsito que separam a zona sul e a zona leste para chegar em casa umas 19h30 fazer a janta cuidar da casa ajudar a filha com as lições que devem ser entregues no dia seguinte se despede dos livros já de madrugada quando coloca a cabeça no travesseiro por meia dúzia de horas até que o alarme toca de novo.

Essa é a rotina de Alessandra Oliveira, de 44 anos. Mulher, mãe, esposa, madrasta, trabalhadora e, na pandemia, foi obrigada a se tornar também professora.

 

Ela continuou trabalhando como recepcionista numa importadora de medicamentos no bairro da Saúde; o marido, Luiz, não teve folga na rotina como trabalhador na construção civil, das 7h às 17h; o enteado, Vinícius, de 18 anos, também continuou na empresa onde trabalha como atendente de telemarketing. Mas um detalhe fez com que a rotina na casa da família, no bairro Recanto Verde do Sol, localizado no distrito de Iguatemi, mudasse muito desde a chegada da pandemia: as aulas da caçula, Ana Luiza, de 11 anos, foram suspensas e, desde quando soube da mudança pela TV - já que a escola não entrou em contato para passar o comunicado -, toda a família teve que adaptar o dia a dia para manter os estudos da menina em dia, principalmente a mãe.

 

De segunda a sexta, das 9h às 17h, Alessandra se divide entre as demandas do trabalho e as ligações de vídeo pelo WhatsApp com a filha, para saber se a menina acordou no horário, tomou café da manhã, fez as atividades ou se tem dúvidas em alguma lição.

 

- A chamada de vídeo é rotina, porque tem hora que ela fica em casa sozinha, então eu quero saber o que ela está fazendo, se ela comeu, se ela tomou banho. As chamadas de vídeo são constantes. Eu sou um pouco rígida nessa questão de Educação. Então, eu tento manter um ritmo da escola ainda, né?

 

O ritmo da escola, no entanto, se perdeu ao longo dos meses. A menina começou a acordar cada vez mais tarde e, consequentemente, dormir mais tarde também. As lições, atividades e provas passaram a ser feitas no meio da tarde, na escrivaninha no quarto que divide com o irmão ou na mesa da sala. A falta de estímulo foi impactando a saúde emocional. A menina, ansiosa, tinha na rotina escolar e na companhia dos amigos a distração. As chamadas de vídeo com a mãe surgiram como uma tentativa de substituir a falta da escola.

Com um celular só seu, Ana acessa os conteúdos que os professores do CEU Alto Alegre publicam diariamente no Google Sala de Aula. A facilidade não significa, porém, que a menina do 5º ano ficou ilesa aos impactos do ensino remoto. Muitas lições para entregar, prazos sempre muito curtos, estranheza com os recursos da plataforma, ausência dos professores para esclarecerem as dúvidas de maneira mais imediata.

 

Depois de alguns meses assim é que a escola decidiu organizar chamadas de vídeo às terças-feiras com a turma para explicar melhor os conteúdos e esclarecer possíveis dúvidas. Mas, para Ana, as reuniões online não funcionaram muito bem, já que a internet travava, muitos alunos falavam ao mesmo tempo e grande parte da turma não conseguia acessar a ferramenta. Talvez por isso os professores tenham desistido da ideia.

 

- Um dia desses a professora até ligou pra gente, mas ela falou que iam parar por 15 dias. Não lembro o porquê, parece que eram algumas coisas que os professores iam conversar, eu não entendi direito. E que depois de 15 dias ia voltar, mas eu acho que já deu 15 dias, até passou. Não falam nada, nem ligam pra gente, nada.

 

A ausência dos amigos e da troca existente em classe também afetaram Ana. As dificuldades caíram no colo da mãe, que se desdobra para acolher cada mudança sentida na rotina da filha.

O ensino médio completo possibilita que Alessandra consiga ajudar a filha principalmente nas lições de Língua Portuguesa, matéria de maior dificuldade da menina, que persiste apesar dos gibis e livros ilustrados que o pai compra desde quando ela começou a ser alfabetizada e das placas de ônibus que a mãe usou para introduzir a menina à leitura.

- Nessa questão, eu acho que sou privilegiada, sim, porque tem mães que trabalham em casa de família e não têm como parar. Tem mães que, na verdade, não tem nem estudo, né? Então, como que vai tirar uma dúvida se elas também não sabem? Eu tenho sim esse privilégio da Ana me fazer chamada de vídeo, a gente estuda junto.

 

Luiz estudou só até a quarta série quando ainda morava em Pernambuco e acabou não aprendendo vários assuntos que as lições da filha exigem saber. Mas o conhecimento em Matemática permite que ele tire as possíveis dúvidas de Ana na matéria, que não são muitas, já que a caçula se dá bem com os números.

 

Ninguém imaginava que a quarentena duraria tanto tempo. A família do Recanto Verde do Sol também foi pega desprevenida. Os meses quase infinitos de enclausuramento foram desgastando cada vez mais a disposição de Ana em acompanhar as aulas. Um dos refúgios que tinha era a casa da avó, no mesmo bairro onde mora. A companhia dos primos que também passavam alguns dias ali e os amigos que tem na vizinhança eram um respiro de Ana no meio do caos pandêmico. Mas Alessandra percebeu que a filha escolhia as brincadeiras às lições - como toda criança de 11 anos faria - e decidiu que a menina ficaria melhor em casa sozinha.

 

- Eu pego muito no pé em questão de escola tanto dela quanto do meu enteado também, porque a gente já vem de uma família humilde, entendeu? E eu penso assim: a única coisa que pode te levar a algum lugar é o estudo.

 

A solidão sentida no intervalo entre o horário que a mãe sai e volta de casa obrigou Ana a encontrar outra companhia. O celular pode ser visto como um vilão, que insiste que ela abra o aplicativo de ícone de lousa para fazer as lições do dia, mas também pode ser o melhor amigo nas horas que ela passa assistindo vídeos de maquiagem, cabelo e culinária - este, o favorito da menina que tem o sonho de ser confeiteira. A ausência física dos amigos da escola também é suprida por meio dos aplicativos, graças a um grupo de WhatsApp criado antes da quarentena ter afastado a turma do CEU Alto Alegre. 

Assim, até parece que a escola não era uma má opção. No meio de uma pandemia, porém, quem é que vai garantir que as dezenas de crianças aglomeradas em uma mesma sala de aula mantenham dois metros de distância umas das outras, lavem as mãos, usem álcool em gel e cubram a boca e o nariz com a máscara o tempo todo? Alessandra se indaga.

 

Enquanto a pandemia persiste, a mãe continua cumprindo todos os seus papéis - principalmente aquele que não escolheu para si - da hora que acorda até a hora que vai - ou tenta - dormir. Não sabe até quando as chamadas de vídeo com a filha vão invadir o seu local de trabalho ou quando vai parar de entrar nas madrugadas tirando dúvidas de Português. O que ela sabe é que é melhor aproveitar os privilégios que diz ter e continuar assim.